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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A herança de Januário

No dia 2 de agosto de 1989 morria, em Recife, Luiz Gonzaga do Nascimento, um mito da cultura nordestina, fenômeno da indústria fonográfica no século XX e eterno Rei do Baião. Em visita a Exu para pegar o gibão que seria posto sobre o caixão, em fita, seu filho, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, registra: "Estou entrando no sertão. Sertão que era do meu pai. À minha direita tem uma lua, deve ser ele, o velho Lua me olhando. A casa dele, o retrato de lampião (pausa). Eu não conheci o meu pai. Eu não perdoei o meu pai. E amanhã é o enterro dele".

O Mestre Lua, ainda jovem 
O drama da relação dos dois Gonzagas move a cinebiografia "Gonzaga - De pai pra filho", novo filme do diretor Breno Silveira. A cena desta gravação não entra no filme, mas é parte do acervo de histórias e registros - entre elas, uma entrevista do próprio Gonzaguinha com o pai - que inspiraram a ficção. A obra chega aos cinemas no próximo dia 26 e soma-se ao rol de homenagens a Luiz Gonzaga neste ano em que ele estaria completando 100 anos.

A exemplo de seus dois filmes anteriores, "À beira do caminho" e, em especial, "2 filhos de Francisco", Breno Silveira traz dramas fortes envolvendo a relação pai e filho tendo a música como pano de fundo. "Alguém me falou que a gente faz eternamente o mesmo filme. Eu estou nisso. Eu quero contar histórias brasileiras", pontuou o cineasta durante a coletiva de apresentação do longa à imprensa, no Cine Eldorado, em São Paulo, na última segunda-feira.

Pai e filho acertam as diferenças

Com o filme de Luiz Gonzaga, Breno voltou atrás da decisão de não filmar mais biografias. Cedeu, explica, à grandiosidade da obra do Rei, ao carisma, às histórias irresistíveis de sua trajetória e à intensidade do drama vivido com Gonzaguinha. As gravações deixadas por ele serviram como ponto de partida para a pesquisa e argumento da venezuelana radicada no Brasil, Maria Hernandez, e para o roteiro, assinado por Patrícia Andrade, que também participou dos dois outros filmes de Breno. "Não foi um filme fácil, não foi um filme rápido. Tudo em Gonzaga é muito grande", declarou o diretor, que encampa o projeto desde 2005, quando iniciou a pré-produção.

Trajetória
Enxertando alguns trechos documentais em meio às cenas fictícias, o filme opta pelo recorte na biografia, explica Breno, como forma de dar a história um caráter mais abrangente que o biográfico. Contar um drama entre pai e filho, acima da relação entre Gonzaga e Gonzaguinha. "Um filme que seja só uma biografia interessante, não é suficiente. Quem dera a gente pudesse viver só dos fãs de Gonzaga. A gente não vive só disso. Cinema é uma coisa muito maior. Tem que atingir várias gerações, fazer sentido para muita gente que nem conhece Gonzaga", argumenta.



Ao lidar com duas figuras cujas feições e vozes estão bastante impregnadas no imaginário do público e retratar passagens da vida dos dois ao longo de, pelo menos, 50 anos, um dos grandes desafios, pontua o diretor, foi conseguir os atores. A saída, justifica Breno, foi trabalhar com não atores que tivessem as qualidades, aparência física, humor, afinidade com seu personagem. Para superar a falta de conhecimento técnico de teatro, foi realizado um intenso trabalho de preparação e ensaio do elenco.

 Ao lado, o diretor do longa, Breno Silveira


A história de Luiz Gonzaga é contada desde a adolescência em Exu, vivido pelo ator Land Vieira, sua saída da cidade, ameaçado por peitar o coronel Raimundo (Domingos Montagner), que proibia seu namoro com a filha, Nazinha (Cecília Dassi); a passagem por Fortaleza, onde serviu durante 10 anos o exército, sua partida para o Rio de Janeiro, já mais velho, vivido pelo músico paulista Chambinho do Acordeon; suas desventuras até que conseguisse sustento com sua música; o relacionamento com Odaléia, mãe de Gonzaguinha; a fama; e, é claro, a infância, na casa dos padrinhos, no colégio interno e o início da carreira de Gonzaguinha (Alisson Santos, de 10 aos 12 anos; Giancarlo di Tommaso, de 17 aos 22 anos; e Júlio Andrade, na fase adulta); seus traumas; brigas homéricas e problemas com Gonzagão.

A ausência de Luiz Gonzaga durante a infância de Gonzaguinha, as diferenças culturais entre os dois e a personalidade forte de ambos tempera um drama onde entender e se aproximar do pai era a grande busca e angústia do filho.

Documentação
A pesquisa sobre a vida e obra dos dois, e dos demais personagens que compõem a trama, foi pautada em entrevistas com familiares, amigos, visitas à Exu, nos registros de áudio e vídeo e em biografias como "Vida do Viajante: A saga de Luiz Gonzaga", de Dominique Dreyfus, e "Gonzaguinha e Gonzagão: uma história brasileira", de Regina Echeverria.

"É lógico que o filme tem liberdade poética pra transformar um pouco a história, mas as passagens mais surreais são verdade", brinca Breno, questionado sobre a veracidade de algumas cenas mais pitorescas. Em uma delas, Luiz Gonzaga aplica um hilário treinamento aos recém-contratados músicos de seu trio, um anão e um negro alto, apelidados respectivamente por Gonzagão de "Salário Mínimo" e "Custo de Vida". Em uma outra passagem inacreditável, ao ver a calçada do Cine Pax, no Rio de Janeiro, lotada por pessoas que não conseguiram ingresso para seu show, o músico sobe no terraço do prédio e toca "para o povo".

A obra retifica ainda informações tidas como certas por muitos dos que acompanham a obra dos dois, como a que Gonzaguinha seria adotado. Mostra um lado menos idealizado de Gonzaga, humanizando sua figura enquanto um homem machista, desleixado com a família, inserindo-o em um tipo sertanejo que, embora não tivesse estudo, buscava a seu modo reconhecimento e ascensão social.

Um retrato que está longe de dar conta, como reconhece o diretor, do tamanho do mito em que se transformaram o mestre Lua e sua obra. Que se furta a esta responsabilidade quando assume a missão de contar apenas um de seus dramas. De emocionar o público ao revelar Luiz Gonzaga naquilo que ele, talvez, menos tenha sabido lidar: a relação com seu filho.


DN
 
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